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Pelo nariz, não. Mas puxar é preciso

Postado por Luiz Weis em 22/6/2007 às 1:40:35 PM
Observatório da imprensa 
 

O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, aproveitou uma conferência sobre questões do setor, na quinta-feira, 21, para repetir o que disse uma ou mais vezes em entrevistas:

"Não é missão da imprensa puxar a sociedade pelo nariz para lá ou para cá."

Pelo nariz, claro que não. Pelo cangote, tampouco. Pelos cabelos, nem pensar.

Mas, com bons modos, é sua missão, sim.

Deixando as metáforas, é o seguinte: nas sociedades democráticas faz parte da razão de ser do jornalismo contribuir para a formação das idéias e mentalidades. Mediante o clássico tripé notícia, análise, opinião.

Simplificando brutalmente as coisas, notícia é "choveu muito ontem", análise é "choveu muito por causa do El Niño", opinião é "ainda bem que choveu muito, apesar dos estragos causados, porque tornou o ar mais respirável".

Tudo depende de como se noticia, se analisa e se opina - é onde entram os metafóricos bons modos: respeito aos fatos e respeito ao público. O que não se pode, a esta altura da história, é crer que a mídia deva se restringir a informar a seco - e deixar tudo mais por conta do leitor/ouvinte/espectador.

Ao contrário do lugar-comum, os fatos não falam por si, salvo em raríssimas situações. Porque tamanha é quase sempre a complexidade dos negócios humanos que eles não têm apenas anverso e reverso. A realidade, com perdão pela obviedade, é um poliedro - que comporta mais de uma visão, mais de uma interpretação. E isso não pode ser suprimido das páginas, emissões, sites e blogues.

Nem me parece que seja outra a posição de Martins. O que ele fez, decerto, foi se manifestar contra a forçada de barra que consiste em embaralhar fatos e juízos de valor - principalmente quando os primeiros são torcidos para servir aos segundos, definidos de antemão - e em limitar o acesso aos meios das vozes que não fazem coro com a voz do dono.

É impossível subestimar a importância dessa diversidade. Não só porque não haveria corrida de cavalos se não houvesse divergências de opinião, conforme o velho ditado americano, mas principalmente porque, ao se expressar, a opinião como que revisita os próprios fatos, permitindo enxergar, se não todos, pelo menos os seus principais matizes.

Ao noticiar a fala do ministro, a Folha deu que ele "fez uma crítica ao que considera excesso de opinião em material jornalístico". Tomando o texto ao pé da letra, é como se opinião não fosse material jornalístico - aliás, foi exatamente o que um leitor deste blog escreveu outro dia.

Peço licença para discordar. Um editorial, ou artigo assinado, é tão jornalístico quanto as notícias a que se refere. A questão consiste em jogar limpo com o consumidor do produto jornalístico - o que é mais fácil de falar do que fazer. De qualquer forma, todo órgão de mídia deve ter espaços claramente identificados para comentários e tomadas de posição.

Até para o público saber com quem está tratando e, a partir daí, ver se o noticiário não está viesado nessa ou naquela direção. Notadamente o jornal nosso de cada dia tem a obrigação de submeter a escrutínio público as suas opiniões sobre os temas quentes do momento.

Se não as tiver, ou se escamoteá-las, estará abdicando de uma parcela crucial de sua responsabilidade como portador de fé pública. Nesse caso, quaisquer que sejam os seus outros atributos, não merece que se perca com ele mais do que o tempo estritamente necessário. Como se faz numa lanchonete fast-food.

resistenciademocratica @ 20:20

Do Melhor Linkk | del.icio.us

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